domingo, 22 de novembro de 2015

Tapete da morte estende-se sobre o cenário mórbido da agonizante Lagoa do Portinho

Ali, fedendo em cima da terra, uma defunta insepulta virou atração de vários olhares curiosos, da mídia, de turistas e de “ambientalistas” que lamentam, sob o manto da hipocrisia, a morte de um pedaço do nosso estado. Um dos mais belos cartões postais do Piauí transformou-se num cenário mórbido, fétido, putrefato, onde a luta pela sobrevivência parece não cessar. Onde antes a vida resplandecia bela e sorridente, hoje a morte reina soberana, exalando o mau-cheiro dos olhos remelentos e fechados do poder público. Esta defunta em decomposição chama-se Lagoa do Portinho.
Localizada entre os municípios de Parnaíba e Luís Correia, a finada Lagoa – localizada a 320 quilômetros da capital Teresina – possuía uma bacia hidrográfica com área de cerca de 40 mil hectares, com vasão média natural correspondente a 2m³/s (dois metros cúbicos por segundo). Hoje são 40 mil hectares de lama, barro seco, peixes mortos e fedor. A morte nunca foi tão espaçosa em nossa região. A única vasão agora não é mais de 2m³/s de água, e sim 2m³/s de lágrimas de uma defunta insepulta, que clama por duas coisas: ou sua salvação, ou seu sepultamento, caindo eternamente no caixão do esquecimento e do abandono. Esta última escolha não parece muito sábia, pois a causa dessa desgraça é conhecida e já foi localizada. Entretanto, os braços fortes de quem tem o poder de lutar pelo cartão postal parecem estar cruzados. 
O drama do ponto turístico teve início no final do ano passado devido a um longo período de estiagem que durou cerca de cinco anos. O que também colaborou para o processo de escassez de água foi um suposto desvio de afluentes, como o Rio Marruá e o Rio Portinho, para propriedades particulares na comunidade Olho d’Água que desenvolvem a prática da aquicultura (criação de peixes).

O ambiente colorido, vivo, onde se ouviam risos da natureza deu lugar a um cenário preto e branco, morto, em que só se ouvem choros, gritos e gemidos. O contraste entre vida e morte é constante: urubus, gaivotas e andorinhas disputam espaço pela fina lâmina d’água que ainda resta no local, buscando alimentar-se dos moluscos e peixes mortos que formam um tapete de podridão por sobre o espaço que antes era preenchido por uma bacia hídrica com volume de cinco milhões de metros cúbicos de água (dados da SEMAR – Secretaria Estadual do Meio Ambiente e Recursos Hídricos).
Pescadores lutam por sua sobrevivência debaixo do sol escaldante, na esperança de que ainda haja alguns peixes vivos na pequena faixa de água que inda resta. A tristeza é visível em seus rostos quando suas tarrafas saem vazias da água, sem peixe algum, apenas restos de uma vida que antes sorria e gargalhava para todos que ali chegavam. A cada jogar de tarrafas, um ar de esperança; a cada retirar, um ar de desesperança e desassossego. Contrastes nada agradáveis.
Com a atual situação em que se encontra o local, várias atividades que movimentavam a economia da região foram afetadas, como o turismo, a pesca e o comércio. Vários bares que funcionavam no local fecharam suas portas e os comerciantes se veem aflitos sem meio de sobrevivência. Até mesmo as gaivotas que se alimentavam dos peixes, estão morrendo de fome. De fato, a falta de chuvas e a ação desordenada do homem foram os principais autores deste assassinato.
Ao que nos parece, o poder público já deu o Atestado de Óbito da falecida Lagoa, pois até a pista que dá, ou dava, acesso ao local foi parcialmente tomada pelas dunas. Isso comprova, sem sombra de dúvidas, que as gestões municipal e estadual já lavaram as mãos em relação ao caso. Nenhuma importância está sendo dada à situação e a Lagoa do Portinho está a Deus dará, dando seus últimos suspiros, até se transformar em coisa alguma. 
“Quando for cortada a última árvore, pescado o último peixe e poluído o último rio, o homem vai perceber que não pode comer dinheiro.” (Provérbio Indígena)
Por Pedro Hoffman e Renato Farias para o Portal PHB em Nota