quinta-feira, 17 de março de 2016

Parque Serra da Capivara: um patrimônio da Humanidade em perigo

Quando chegou à Serra da Capivara, no sertão do Piauí, em 1973, a arqueóloga Niède Guidon se embrenhava de 15 a 20 dias na mata, montada em jegue, escavando paredões e dormindo ao relento. O sacrifício era para preservar uma descoberta que mudaria a história do povoamento do homem nas Américas. 
Com o achado, a pesquisadora franco-brasileira, transformou o local em um dos principais centros científicos de arte rupestre do mundo. Quarenta e três anos depois, o Parque Nacional Serra da Capivara, localizado a 530 km de Teresina, é um patrimônio da humanidade em perigo.
Desolada, Niède Guidon chega a esbravejar: “É muito triste ver um parque que era perfeito, agora abandonado e todo trabalho perdido. Prefiro não ir mais lá [no parque]”. 
Nos últimos dois anos, a Fundação Museu do Homem Americano (Fumdham), parceira do governo federal na manutenção da unidade, enfrenta uma das piores crises financeiras. Dos 270 funcionários necessários para manutenção, somente 31 trabalhavam no dia da visita, neste mês de março. As guaritas, das 28 existentes, somente cinco estavam abertas para visitações, segundo a fundação. Amargando sem doações, o parque precisa de R$ 400 mil ao mês para manutenção. 
VALE A VISITA
Os problemas, entretanto, não significam que o local não valha a visita. Um dos maiores museus a céu aberto da América ainda impressiona pela imensidão e permite uma viagem à pré-história.
Para entrar, é obrigatório contratar um guia, que cobra R$ 150. A primeira parada é no sítio Toca do Boqueirão da Pedra Furada. É um dos circuitos preferidos do visitante. Ao entrar, a recepção é um centro com exposição da megafauna com animais desaparecidos há 10 mil anos. Entre os vestígios estão um crânio de bicho-preguiça, mastodontes (que pareciam elefantes de cinco toneladas) e tigre-dentes-de-sabre (felino extinto que pesava até 300 quilos).


A poucos minutos dali, está o sítio Pedra Furada, outro símbolo do parque. Uma rocha imensa com fissura provocada por ventos e chuvas, virou espetáculo para admiração e selfies. Lá foi construído um anfiteatro para mil pessoas –porém, o mato está tomando conta do local, que abrigou a primeira solenidade para as comemorações dos 500 anos do Brasil.
Os circuitos mais interessantes e com trilhas limpas e pouco desgastadas são os da toca do Pajaú, do Barro, Inferno, Veadinhos Azuis e do Paraguai. Este último foi o primeiro sítio mostrado pela arqueóloga Niède Guidon, a principal responsável pela existência do complexo, ao mundo. Na época, em 1973, foram descobertos dois esqueletos humanos, um com datação de 8.670 anos e outro de 7.000 anos.
É possível percorrer desfiladeiros, avistar uma infinidade de paredões e, do alto, admirar a grandeza da região.
O parque está aberto durante todo o ano, mas o melhor período vai de dezembro a julho, devido à vegetação verde e o clima ameno.
O museu do Homem Americano, com acervo permanente das descobertas feitas no parque, completa a visita. Na exposição são mostradas inscrições, além de esqueletos humanos, cerâmicas, vestígios, adornos, fragmentos e objetos como chaves e balas de fuzil.
Na trilha do Boqueirão da Pedra Furada há acessos para cadeirantes. Dos 170 sítios que podem ser visitados, 17 têm rotas para pessoas com cadeiras de rodas. Essa era uma das trilhas mais conservadas. No sítio é possível fazer um passeio noturno, desde que previamente agendado. No dia da visita, nenhum turista foi encontrado naquele trecho e a sensação era de um passeio quase que exclusivo. 
Sem equipes suficientes para a conservação, sítios no parque Serra da Capivara estão com passarelas quebradas, placas de sinalização caídas e trilhas precisando urgentemente de limpezas. Foram flagradas pinturas danificadas com a presença de cupins, ninhos de vespas e paredões manchados com urinas e fezes de mocós (um roedor característico da região). Na visita, uma árvore foi achada nascendo dentro de área proibida, ameaçando danificar inscrições rupestres no sítio toca Pedro Rodrigues. 
O guia turístico, Iderlan de Souza, 30 anos, lembrou que existia uma equipe de conservação de pinturas e que foi drasticamente reduzida, devido à falta de verba. “Eles percorriam todo o parque e faziam a limpeza, evitando a deterioração. Agora, fico na esperança de que vai chegar verba para acabar com esse tormento”, disse o guia que é estudante de Arqueologia. 
cidadeverde.com