quarta-feira, 27 de julho de 2016

Documentário vai investigar o desaparecimento dos jumentos no sertão nordestino

O jumento perdeu a sua função econômica em vários Estados do Nordeste, incluindo Pernambuco. Passou a ser um empecilho no meio do caminho. A trajetória do animal virou mote da série de TV intitulada Na Contramão, com roteiro dos jornalistas Ricardo Mello e Rafael Marroquim, da produtora Rima Cultural.
“Começamos a observar muitos jumentos na beira da estrada, alguns atropelados. E aí percebemos que aconteceu uma transformação social e econômica. O animal deixou de ser um bem”, conta Ricardo. Em alguns lugares, o jumento está virando praga, como ocorre no Rio Grande do Norte.
“Os jegues eram usados para carregar açúcar, água, pedra etc., mas as pessoas do meio rural trocaram os jumentos pelas motos. Aí começou o abandono e surgiu uma situação de descontrole na quantidade dos animais”, diz Celso Mariano, secretário de Agricultura de Guamaré, no Rio Grande do Norte. A prefeitura da cidade chegou a proibir, por dois anos, a entrada de jumentos na cidade. Atualmente, a gestão municipal gasta cerca de R$ 7 mil para manter uma propriedade na qual “guarda” 100 jumentos para evitar acidentes nas estradas.
No Agreste e no Sertão de Pernambuco, é comum os jumentos estarem abandonados próximos às rodovias. No ano passado, a Polícia Rodoviária Federal adquiriu três novos caminhões adaptados para recolhimento de animais. Em 2014, foram retirados 462 animais das margens das estradas que cortam o Estado. No ano passado, o número saltou para 1.424, a maioria de jumentos.


O abandono dos animais coincide com a explosão do número de motocicletas no interior, viabilizada pelo acesso ao crédito, que permitiu a uma população de menor renda ter acesso ao veículo. “O jumento passou a fazer parte de iniciativas pontuais, na contramão da estrada e da história”, conta Ricardo, citando projetos como o do jegue que leva livros para crianças nas comunidades de Amaraji, na Mata Sul.
O documentário Na Contramão será realizado por R$ 438 mil até junho de 2017, quando deve ser finalizado. “Numa primeira fase, vamos mapear a situação do jumento numa pesquisa que será feita no interior de Pernambuco, Paraíba, Rio Grande do Norte e Ceará”, afirma Rafael Marroquim. Essa etapa vai gerar trabalho para 15 pessoas de agosto a dezembro próximos. A filmagem deve levar um mês, ocupando 20 profissionais. E a finalização será realizada por 10 técnicos.
Os recursos para realizar a série de TV foram captados numa chamada pública realizada pela TV Pernambuco, via Secretaria Estadual de Ciência e Tecnologia, e pelo Fundo Setorial do Audiovisual. A primeira entrou com R$ 146 mil e o último, com R$ 292 mil. E a crise? “O audiovisual continua a pleno vapor. O fundo setorial é um dinheiro gerado pelo próprio setor, que vem, entre outras coisas, da taxação dos filmes estrangeiros”, explica o sócio da REC Produtores Associados, Chico Ribeiro. A REC entrou como parceira da Rima Cultural no documentário.
A série será composta de três episódios, com a direção de Marcelo Pinheiro. Cada capítulo vai abordar as diferentes problemáticas sobre o tema, contando como os primeiros animais chegaram ao Brasil, o papel do jumento na formação das cidades do semiárido, a atual situação de abandono e os poucos locais onde o bicho é valorizado. Um deles é Panelas, no Agreste do Estado, a qual promoveu este ano a 43ª edição do Festival Nacional de Jericos. “O evento é uma homenagem ao jumento, que ajudou a construir o Nordeste. Em Panelas, as pessoas cuidam dos jumentos para concorrer às premiações concedidas durante o evento”, diz o prefeito de Panelas, Sérgio Miranda (PSB). A iniciativa faz parte do calendário turístico da Empetur e da Embratur e atrai centenas de turistas.
Fonte: Portal Meio Norte