domingo, março 25, 2018

Ceará tem madrugada de ataques a prédios públicos, e 60 veículos são incendiados

      Mais de 50 carros foram incendiados em Cascavel - Reprodução/TVM
FORTALEZA — Pelo segundo dia seguido, prédios públicos do Ceará foram alvos de ataques criminosos, que deixaram, ainda, ao menos dez ônibus e outros 60 veículos queimados. As ações ocorreram em Fortaleza e na Região Metropolitana do estado, durante a madrugada deste domingo. Seis pessoas foram presas por suspeita de envolvimento nos atos.
Em reação aos ataques, o governador Camilo Santana (PT) convocou, neste domingo, uma reunião com a cúpula da Segurança e da Justiça de sua administração para avaliar medidas. Segundo especialistas em segurança pública, as ações podem representar uma reação de criminosos a uma determinação judicial que obriga o estado a instalar bloqueadores de sinal de celular nos presídios do Ceará.
Três prédios da capital cearense foram atacados durante a madrugada: a Secretaria Executiva Regional IV, o 18º Juizado Especial e a Empresa de Transporte Urbano de Fortaleza (Etufor). No município de Cascavel, a 60 quilômetros da capital, criminosos incendiaram cerca de dez carros e 50 motocicletas no pátio da Secretaria estadual de Infraestrutura (Seifra). Em Sobral, no interior do estado, indivíduos arremessaram coquetéis molotov contra o prédio da Coordenadoria Integrada de Operações de Segurança (Ciops), mas o artefato não chegou a incendiar.
REUNIÃO DE EMERGÊNCIA
Os ataques em Fortaleza deixaram, ainda, dez ônibus incendiados e duas antenas de telefonia móvel danificadas. Após a sequência de crimes, a Etufor decidiu que os veículos vão circular em comboios com acompanhamento de policiais militares e guardas municipais.
Na madrugada de sábado, criminosos já haviam atirado contra o prédio da Secretaria de Justiça do Ceará. Três pessoas morreram em confronto com a Polícia Militar.
Durante a tarde deste domingo, após reunião com integrantes de sua administração, o governador prometeu reforço no policiamento e nos trabalhos de inteligência.
— Desde 2016, venho cobrando insistentemente o envolvimento do governo federal, que agora abriu os olhos para o problema — afirmou Santana.
No início do mês, o ministro da Segurança, Raul Jungmann, anunciou a criação do Centro Regional de Inteligência, formalizando a participação de órgãos federais no combate ao crime organizado. O projeto ainda não foi implementado.
A polícia do Ceará prendeu seis pessoas por envolvimento na sequência de ataques criminosos de sábado e domingo. Igor Victor da Silva Fernandes, Daniel Vanderlei de Freitas Costa e Antônio Elton Lopes Cassiano foram presos no Centro de Fortaleza, próximo a locais onde foram registrados ataques. Eles carregavamgalões de gasolina. Luís Daniel Oliveira Beserra e José Venício da Costa Andrade também foram capturados com material inflamável. Já Bruno da Silva Triunfo foi preso portando uma pistola calibre .380. Ele é suspeito de atacar a Etufor.
BLOQUEADORES DE CELULAR
A secretaria de Segurança Pública do Ceará não informou a linha de investigação dos crimes. Para o sociólogo Leonardo Sá, integrante do Laboratório de Estudos da Violência (LEV), os ataques podem ter sido motivados pela decisão judicial que obriga a instalação de bloqueadores de celular no sistema penitenciário do estado. Decisão do juiz Francisco Eduardo Torquato Scorsafava no último dia 2 determina “a devida instalação de bloqueadores de sinal de celular em todas as unidades prisionais sob sua responsabilidade” no prazo de 180 dias.
— O que significa o celular para uma facção criminosa? Comunicação com a rua, com os aliados, controle dos negócios. A maior parte dos negócios ilícitos é controlada por celular. Então, sim, isso seria um motivo plausível para o ataque a secretaria de Justiça. Como “soldados” deles foram mortos na ação, isso desencadearia as represálias — argumenta o sociólogo.
No último dia 12, o governador citou a decisão da Justiça ao comentar a chacina que deixou sete mortos no bairro Benfica, no dia 9.
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— Ninguém mais do que eu quer implementar os bloqueadores de celular no estado. Sofremos ameaças: a Assembleia, o governo do Estado. Mas ninguém mais do que eu tem defendido isso, aliás, não só no Ceará, no Brasil inteiro. Porque o crime ultrapassou as fronteiras — disse Santana na ocasião.
Leonardo Sá avalia que os ataques contra prédios do Estado podem ser intensificados. Ele acredita que diferentes facções criminosas possam estabelecer uma “trégua temporária” entre si.
(*Especial para O GLOBO)