quarta-feira, março 21, 2018

PI: Aluna é proibida de levar filha à escola e diz: “não vou desistir de estudar”

Natasha Eugênia, 26 anos, cursa o 3º ano do Ensino Médio no Centro de Educação Básica Professor James Azevedo e tem como meta de vida ser enfermeira. Mãe de uma menina de cinco anos de idade, para conseguir aliar os estudos com a maternidade, ela decidiu levar a filha à sala de aula. No entanto, a direção da escola onde a jovem estuda a proibiu de frequentar as aulas com a criança.
O CEB Professor James Azevedo, fica localizado no bairro Alto Alegre, na zona Norte de Teresina. A jovem conta que é “obrigada” a levar a criança para a escola porque não tem com quem deixá-la. 
“Na minha casa só mora eu e minha mãe, que trabalha à noite, na hora que eu estudo. Minha filha não tem pai. Eu não quero desistir de estudar e, por isso, levo minha filha para a escola comigo. Fiz isso no 1º e 2º ano. Agora a direção da escola proibiu”, conta Natasha. 
A estudante relata que na noite dessa segunda-feira (19), durante uma aula de química, o diretor da escola entrou na sala onde a jovem estava com a filha e fez gestos com a mão para ela sair da aula com a criança. 
“Eu perguntei qual era o motivo e ele [diretor] questionou se eu queria mesmo saber. Fiquei constrangida e tive que sair. Ele [diretor] falou que eu não podia levar minha filha, que estava prejudicando a infância dela, que podia acontecer algum caso de pedofilia e ele não ia se responsabilizar”, relata Natasha. 
Natasha afirma que ficou constrangida pelo modo como o diretor teria agido. Segundo a jovem, os outros alunos da turma ficaram a favor dela e garantiram fazer um abaixo-assinado pedindo que seja permitida a permanência da criança durante as aulas. 
“Eu me senti mal, os alunos tentaram me defender, mas o diretor pediu para eles calarem a boca. Minha filha é uma criança comportada e não incomoda nada na aula. Levo coleções e ela passa a aula pintando papéis, quietinha”, acrescenta Natasha. 
Angélica Evangelista estuda na mesma turma que Natasha e presenciou a suposta atitude do diretor. Ela conta que achou um “absurdo” o modo como a direção do CEB Professor James Azevedo agiu. 
“Ele [diretor] disse que era norma da secretaria de Educação. Que se ele desobedecesse poderia ser demitido e ninguém ia pagar a escola cara da filha dele. Ele disse que se a Natasha não tivesse com quem deixar a filha, ela ia perder o ano letivo. Achei um absurdo porque eu também sou mãe, assim como outras alunas da escola”, relata a estudante. 
"Voltei a estudar pela minha filha"
Natasha conta que passou um tempo sem estudar e foi quando sua filha nasceu que ela decidiu retornar à escola.
“Eu tenho vontade de fazer enfermagem. Eu não queria ir para escola, mas quando minha filha nasceu eu quis voltar aos estudos para poder dar uma vida, um futuro melhor para ela. Eu não vou desistir de estudar e hoje vou novamente à escola com minha filha”, afirma.
O vídeo que registrou o momento "viralizou" nas redes sociais e o caso ganhou repercussão nacional. 
"Já dei aula com crianças na sala, na faixa etária de 3 a 5 anos. Quando isso acontece, eu dou um lápis e caneta para elas brincarem, riscarem à vontade. Além de professor também sou mediador de conflitos e busco conhecer as pessoas. Se a mãe leva o filho para a sala de aula, tenho que reconhecer o esforço dela e ajudá-la. Esta é minha função. Se o aluno chega atrasado por conta do trabalho, busco entender. Se não tem material, peço que compartilhe com o colega. O que não pode é deixar de assistir aula", disse em entrevista ao Cidadeverde.com o professor Alessander Mendes. 
"Não posso agir com emoção", diz diretor
O diretor do CEB Professor James Azevedo, Antônio Carlos Bezerra, falou ao Cidadeverde.com que fez apenas o que prevê a legislação. Ele, que também é psicopedagogo e bacharel em Direito, alega que um gestor público é subordinado à lei.
Para a direção, a presença da criança na escola a deixa em situação vulnerável e, caso haja algo com a menina, a administração do CEB James Azevedo pode responder criminalmente, além de abrir brechas para a presença de filhos de outros estudantes matriculados na escola. 
“Enquanto eu for gestor e educador não posso agir de forma com emoção. Não há violação do direito da mãe. Ela está matriculada e tem direito de assistir às aulas, mas não com a filha do lado. A escola é profissionalizante, noturna. Não tem sentido, é uma violação à ética da pedagogia. O direito da mãe é um, o da criança é outro. Falei isso em sala de aula porque os alunos pediram para eu explicar o motivo de não permitir a presença da filha da aluna”, argumentou o diretor Antônio Carlos. 
Outra escola
O diretor afirma que não tem intenção de prejudicar a vida escolar da aluna e acha até “louvável” a atitude de Natasha de insistir nos estudos. No entanto, ele ressalta que, não será mais permitida a entrada da filha da jovem na escola. 
“Infelizmente ela vai ter que procurar outra escola. O aluno tem que procurar a melhor forma de administrar a vida dele. Essa moça tem família. Cadê o pai da criança?”, questiona o psicopedagogo. 
O diretor informou que acionou o Conselho Tutelar para que o órgão possa ir na escola e “orientar essas mães”. 
Antônio Carlos Bezerra comentou, ainda, o episódio do professor que ninou o bebê de uma aluna para que ela não deixasse a sala de aula. Para ele, a intenção do educador era de chamar atenção dos órgãos para a instalação de “salas temáticas” para filhos de estudantes. 
“Achei interessante nesse sentido de chamar atenção dos órgãos. Mas acho que ele não quis endossar a pratica. Até porque ele não é gestor e, se acontecer alguma coisa com a criança na escola, não é ele que será responsabilizado”, acrescenta o diretor. 
Fonte: TV Cidade Verde