terça-feira, dezembro 07, 2021

Ex-sargento da PM é condenado a 18 anos de prisão por tentativa de feminicídio no Piauí

Foto: Divulgação/Polícia Civil
O ex-sargento João Paulo Norões foi julgado pela prática do crime de tentativa de homicídio qualificado por feminicídio, meio que impediu a defesa da vítima e por motivo fútil.
A juíza Maria Zilnar Coutinho Leal, da 2ª Vara do Tribunal Popular do Júri, condenou no dia 6 de dezembro o ex-sargento da Polícia Militar do Piauí, João Paulo Norões de Lima Menezes, a 18 anos e 8 meses de reclusão em regime fechado, por tentativa de feminicídio contra a companheira no dia 2 de julho de 2020.
O ex-sargento foi julgado pela prática do crime de tentativa de homicídio qualificado por motivo fútil, com emprego de asfixia, com o uso de recurso que impossibilitou a defesa da vítima e contra a mulher por razões da condição de sexo feminino, envolvendo violência doméstica.
A vítima, que é uma empresária, registrou um Boletim de Ocorrência no dia seguinte ao crime, 3 de julho de 2020, e um laudo do Instituto de Medicina Legal apontou as agressões. No dia 10 de julho João Norões foi preso e desde então permanece na penitenciária Irmão Guido, em Teresina.
Como desde o ano passado o ex-sargento está preso, a juíza Maria Zilnar determinou que ele não poderá recorrer da decisão em liberdade e então permanece preso.

Acusado tinha ciúmes
No julgamento, a vítima informou que eles estavam há quase um ano juntos e que em poucos meses decidiram morar juntos na residência dela, na Zona Norte de Teresina. Ela disse que o relacionamento começou bem, mas foi piorando devido aos ciúmes do acusado.
“No começo era tudo bom, era um namorado normal, era atencioso, romântico. Antes tinha a questão do ciúmes, mas uns seis meses depois que começamos a namorar é que foi aumentando, dele falar em relação a roupas, das amizades, dos meus clientes na loja. Ele não queria que eu vestisse saia de jeito nenhum”, afirmou.
Ela explicou que ele queria controlar com quem ela se relacionava, até mesmo com pessoas da própria família.
Em depoimento, a empresária relatou que muitas brigas eram por causa de dinheiro, porque o acusado queria que ela ajudasse ele financeiramente. Ela informou que chegou a emprestar dinheiro para João Norões comprar uma arma, valor esse que ele não teria pago a ela, e que o acusado sempre falava sobre a necessidade de comprar uma casa que atendesse aos dois filhos que ele tem de um relacionamento anterior.
O crime
No dia do crime, ela disse que quando chegou do seu trabalho João Norões saiu do quarto e começou as agressões que teriam sido motivadas porque mais cedo, a mulher havia realizado o pagamento da parcela de um consórcio que ambos pagavam. O acusado afirmou que a atitude dela era para humilhar ele.
“Cheguei e dei boa noite. Ele saiu do quarto já alterado, visualmente já tinha bebido, e já foi segurando o meu braço. Cheguei a pensar que ele fosse me dar um abraço, mas não, ele já começou a falar absurdos, que eu não precisava dele, que eu tratava ele como um merdinha, e começou a me xingar de ordinária e vagabunda”, afirmou a vítima.
Chorando muito, a vítima relatou as agressões e ameaças que recebeu de João Norões, que chegou a questionar porque ela não ligou para saber se ele tinha almoçado.
“Ele então me deu um soco, me pegou pelo braço e me jogou contra a parede. Eu comecei a gritar que queria que ele fosse embora e me deixasse em paz. Foi quando ele começou a me chutar quando eu estava no chão. Saí me arrastando para o quarto e ele dizendo que iria me matar. Eu pedi para ele parar, mas ele puxou meu cabelo e saiu me arrastando. Depois ele pulou em cima de mim e começou a apertar a minha garganta”, relatou a vítima aos prantos.
Ela falou que implorou para que o acusado soltasse ela, mas que ele continuou com as ameaças, afirmando que iria matá-la e jogar o corpo no rio. A vítima disse que conseguiu se levantar e correu para o banheiro, onde gritou por ajuda.
“Ele arrombou a porta, continuou me batendo, me xingando. Ele saiu me puxando e me jogou dentro do carro. Ele disse que iria me matar. Me deixou trancada no carro e saiu para pegar uma bolsa. Eu fiquei sem saber o que fazer, porque o portão também estava trancado. Eu sabia que a única forma de escapar era fugir do carro”, explicou a vítima.
Quando o acusado entrou no carro, ele estava com a arma, já que era policial militar. Ela disse que quando ele abriu o portão, e estava tirando o carro, ela aproveitou para fugir e se abrigou na casa de uma vizinha.
“Quando eu bati na porta, ela [a vizinha] abriu o portão e entrei na casa dela que fica duas casas depois da minha. Me escondi debaixo da mesa dela, e falei que ele estava tentando me matar. Ele ainda tentou entrar na casa e ligamos para a polícia. Quando a polícia chegou, ele já tinha ido embora”, afirmou.
Consequências
A vítima relatou que toma remédios para poder dormir. "Eu ainda não consegui voltar com a minha vida 100%. Ainda hoje tenho pesadelos, ainda tenho insônia. Tem dias que saio da minha loja chorando. Depois do que aconteceu, eu até mudei o local da minha loja", declarou a empresária.
A empresária ainda afirmou que a ex-companheira de João Norões chegou a relatar que tinha sido agredida pelo acusado quando eles estavam juntos, mas que acreditava que com ela seria diferente.
“Eu fiquei sabendo disso por ela, mas eu falei que todo mundo tinha direito a uma segunda chance, que não era porque ele fez com ela, que faria comigo, porque ele me tratava bem no começo”, lamentou.
A vítima disse que em brigas anteriores, chegou a pedir para o acusado sair da sua residência e tentou terminar o relacionamento, mas que eles sempre voltavam a ficar juntos.
Expulsão da PM
Em decisão publicada no Diário Oficial do Estado de 12 de maio deste ano, o comandante geral da Polícia Militar do Piauí, o coronel Lindomar Castilho, determinou a expulsão do sargento João Paulo Norões de Lima Menezes dos quadros da PM por tentativa de feminicídio contra a companheira.
“Pela análise minuciosa dos autos, restam comprovadas as condutas perpetradas pelo acusado em face de sua ex-companheira, ofendendo gravemente a honra pessoal, o pundonor militar e o decoro da classe, comprometendo a imagem e a credibilidade desta corporação militar e de seus integrantes”, afirmou o comandante Lindomar Castilho na decisão de exclusão por transgressão disciplinar de natureza grave.
Apesar da decisão, a defesa do acusado ingressou com um recurso com o objetivo de suspender a decisão de expulsão.
Fonte: Portal G1 PI