quarta-feira, março 16, 2022

Advogada foi morta dormindo, diz mãe ao garantir no Júri que assassinou a filha sozinha

A aposentada Maria Nerci dos Santos Mourão, de 71 anos, voltou a assumir a autoria do assassinato da filha, a advogada Izabela Mourão que foi morta com onze facadas no dia 13 de fevereiro de 2021.
                                                          Izadora Mourão
Durante depoimento nesta quarta-feira (16) no Tribunal do Júri, na 2ª Vara da Comarca de Pedro II, a 206 km de Teresina, Maria Nerci confessou que matou a filha dormindo e negou a participação do filho, o jornalista João Paulo Santos Mourão no assassinato.
Maria Nerci decidiu assumir a autoria do assassinato alegando que foi a única responsável pelas facadas que mataram Izabela, mas essa versão é descartada pela acusação que acredita que o objetivo é impedir que a autoria do crime recaia em João Paulo. Como Maria Nerci é idosa e tem um filho com deficiência, poderia ser beneficiada com redução de pena ou até mesmo, em caso de condenação, não cumprir regime fechado.

Em depoimento a idosa disse que Izabela chegou em casa reclamando de dor de cabeça e que ambas tiveram uma discussão. Maria Nerci disse que a advogada teria feito ameaças e afirmado que faria a idosa perder a sua aposentadoria.
Segundo a versão da acusada, após a filha tomar um remédio para dor de cabeça, ela foi dormir no quarto do irmão, mesmo tendo um quarto na casa, e que seu filho João Paulo foi para outro cômodo, momento em que ela decidiu cometer o crime.
“Como ela disse que vai me matar e me judiar, eu fui ver se ela estava se mexendo ou dormindo. Eu fui ver e ela estava dormindo, com sono pesado. Eu tinha levado a faca, pois eu disse: ou hoje ou nunca, senão ela me mata primeiro. Eu dei o primeiro golpe, que foi muito forte, ela pegou no meu braço esquerdo, se virou. Ela queria se virar para pegar a faca, mas não conseguiu se sustentar. Eu dei um golpe muito forte e saiu bastante sangue, e eu fiquei golpeando, porque senão ela pegaria a faca e mataria todo mundo. Não contei quantos golpes. E depois ela ficou lá emborcada”, afirmou.
Maria Nerci disse que foi necessário cometer o crime e que tudo aconteceu em legítima defesa, pois se sentia ameaçada.
“Sei que é muito errado, mas dizem que quem mata em livre defesa não é pecado. Sabendo que era uma coisa horrível, mas uma coisa que eu nunca tinha feito, nem matar uma galinha, mas ela estava muito mal comigo. Eu não quero que nenhuma mãe ou pai passe por isso, eu não estava mais suportando. Tem muita gente me julgando muito mal, mas eu não sou uma pessoa ruim. Eu sou uma Nerci boa, criei meus filhos muito bem, mas ela infelizmente teve esse problema com ela”, disse.
Durante depoimento ela foi questionada porque Izabela, que tinha o melhor quarto da casa, foi dormir no quarto de João Paulo, a idosa disse que ela gostava de ficar no quarto do irmão.
A acusação também questionou porque Maria Nerci demorou duas horas após o crime para ligar para a mulher que ajudava na limpeza da casa. "Eu fui fazer um suco", revelou a idosa. Quando a acusação questiona porque ela foi fazer um suco, ela disse que não se lembrava o que tinha feito. "Eu não se sei se fiz um suco, não me lembro mais o que aconteceu", alegou. Ela ainda disse que não avisou ao filho João Paulo que estava no outro quarto sobre o que aconteceu, somente após a chegada da mulher que realizava a limpeza da casa.
João Paulo negou autoria
Durante seu depoimento, o jornalista João Paulo Mourão negou sua participação na morte da irmã, que foi assassinada a facadas no quarto do acusado. Em depoimento, ele afirmou que a irmã chegou em casa por volta das 6h30 da manhã de sábado, 13 de fevereiro.
Ele disse que a advogada estava se sentindo mal, e mesmo tendo o próprio quarto, foi dormir no quarto dele, o que fez João Paulo ir dormir no quarto da mãe, localizada nos fundos da residência. O acusado disse que foi acordado por volta de 9h30, pela mãe e a diarista, que informaram que Izabela estava morta.
João Paulo Mourão
“Me conduziram até a porta do meu quarto e vi a cena que foi mostrada nos autos. Eu fiquei em estado de choque e paralisado sem saber o que fazer. Aí fechei os olhos e abri de novo para saber se não era um pesadelo. Perguntei para a minha mãe o que aconteceu, ela deu relato, que foi o mesmo que dei para os policiais”, afirmou.
A primeira versão contada pela família foi que uma mulher foi até o local fazer uma cobrança e que ela teria cometido o crime, mas logo depois João Paulo foi preso apontado como o executor do crime. “Eu fiquei surpreso, completamente abismado, sem saber entender aquilo. Voz de prisão? Porque? O que eu fiz? Fiquei surpreso, sem entender o que está acontecendo. Falei que era um grande mal entendido”, disse o acusado.
João Paulo declarou ainda que ficou surpreso após descobrir o envolvimento da sua mãe e por ela ter colocado ele nessa situação. “Eu estou muito entristecido com o que a minha mãe fez, que acabou me prejudicando, que causa revolta, não só para os filhos da minha irmã, revolta nos parentes, em mim, que estou sofrendo absurdamente. Eu fiquei muito triste, o primeiro relato que ela me deu, eu acreditei na minha mãe, porque ela sempre falou a verdade para mim, e não tinha como eu duvidar”, afirmou.
Ele ainda destacou que antes do assassinato, a mãe relatou que as duas tinham discutido. “Eu era a pessoa que apaziguava os ânimos, que buscava que elas ficassem de bem, unidas, pelo tempo necessário, para ficarem em paz”, destacou.
Durante o julgamento, a Polícia Civil apresentou um bilhete apontado com teor ameaçador que o irmão de Izadora enviou a ela antes do crime, que dizia que era para ela cuidar da vida dela,e deixa eles em paz. O jornalista negou que tenha sido uma ameaça. “Eu falei isso para a saúde dela, o bem estar dela. Ela tinha um problema nos nervos no braço, fez uma consulta com um psicólogo, que após a separação ficou depressiva, foi passado remédio e ela não estava tomando esse remédio, nem o do braço. Ela estava deixando de tomar a medicação dela. Eu nunca pressionei ela em nada, era só para ela ficar bem de saúde”, alegou. Perícia diz que João Paulo cometeu o crime.
                                                    Maria Nerci e João Paulo
Segundo a Polícia Civil, a perícia atestou que no dia do crime, João Paulo executou e a mãe assistiu ao assassinato, pois a posição dos golpes de faca feitos em Izadora favorece o lançamento de sangue encontrado no vestido da mãe dela, Maria Nerci. As roupas usadas por João Paulo não foram encontradas.
De acordo com a perícia, Izadora sofreu 11 golpes de faca, a maioria no pescoço e uma no peito. Foram feitas perfurações de 4 a 9 centímetros, que seriam incompatíveis com a força da idosa.
Briga por herança
O Ministério Público defende a tese de que o crime foi cometido por João Paulo e Maria Nerci, e que a motivação estaria relacionada a uma herança de cerca de R$ 4 milhões, deixada pelo pai da advogada.
"Desde o primeiro momento, o Ministério Público trabalha com as provas que foram produzidas pela perícia e pela Polícia Civil do Piaui. O Ministério Público trabalha com a participação da dona Maria Nerci e do João Paulo, em razão de uma divisão de bens, de uma herança", destacou o promotor de Justiça, Márcio Carcará.
O ex-namorado de Izadora, Marcos Antônio dos Santos Viana, afirmou ao Júri que ela tinha medo do irmão e da mãe e que a advogada era muito próxima do pai e que após a morte dele, a mãe e o irmão se voltaram contra ela.
"Eles trocaram as fechaduras da casa de Teresina e não deram a chave para ela, impediram ela de frequentar uma chácara que era da família. Ela dirigia uma D20 e até ela eles queriam vender. Ela disse outra vez: meu irmão tem o perfil de um psicopata. Já estudei e é o perfil do meu irmão. Ele não demonstra felicidade, tristeza", relembrou o ex-namorado.
Fonte: Cidade Verde